6 perguntas para Miroslav Volf

Miroslav Volf (Foto: DIVULGAÇÃO/EDITORA MUNDO CRISTÃO)

1. O que é fé pública?
Fé pública é fé em ação. É a fé que leva à ação política e a múltiplos níveis de engajamento pelo bem comum, como trabalhar por melhorias na escola do bairro ou participar da política nacional, debatendo o tratamento dado aos imigrantes, opondo-se à pena de morte ou lutando por acesso a educação e saúde de qualidade.

2. Por que os cristãos — evangélicos, em especial — tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil têm se engajado na política por meio de pautas conservadoras, como a defesa das armas e a oposição ao aborto?
Há muitos evangélicos que defendem uma plataforma política progressista. Mas, sim, alguns tipos de protestantismo — e de religião, em geral — são conservadores, porque se refugiam num passado que se perdeu e, consequentemente, encabeçam movimentos que lutam para assegurar que a cultura não se desvie dos ideais morais do passado.

3. Por que os partidos e movimentos progressistas e de esquerda não dialogam com os evangélicos?
A religião não é tão valorizada no campo progressista. A eleição presidencial americana é um exemplo. Donald Trump, o candidato da direita, se comportava de maneira antirreligiosa, mas cortejou os eleitores cristãos. Hillary Clinton era uma candidata progressista e cristã, mas não buscou o apoio religioso, o que frustrou muitos cristãos progressistas. Muitas pessoas abraçam plataformas políticas progressistas por razões religiosas. Muitas pautas progressistas podem ser fortalecidas e atrair apoio do eleitor evangélico se articuladas em termos religiosos.

4. Qual a sua opinião sobre o uso de títulos religiosos, como pastor e missionário, por políticos?
Minha reação imediata é me opor ao uso de títulos religiosos por políticos. Esses títulos dão um brilho de autoridade aos candidatos, mas, no processo democrático, eles devem se sustentar por seus méritos. Um político com um título religioso fala como líder de um grupo com interesses particulares. Os títulos religiosos são enganosos e ajudam os políticos a obter um apoio que não conseguiriam ou mereceriam em outras circunstâncias.

5. Qual a sua opinião sobre o apoio de lideranças religiosas a candidatos?
Eu apoiei publicamente Hillary Clinton em 2016 (risos). Há uma diferença entre declarar apoio a um candidato e orientar o rebanho a votar em um candidato específico, o que está fora de cogitação. Como teólogo, engajar-me publicamente não é apenas um direito, mas também uma responsabilidade. Mas direcionar o voto de minha comunidade para determinado candidato é uma transgressão. Eu levo muito a sério essa questão: será que um líder religioso deve apoiar publicamente um candidato? Talvez eu tenha errado ao declarar apoio publicamente a Hillary Clinton.

6. De 2008 a 2011, o senhor deu um curso sobre fé e globalização em Yale. Qual o papel da fé no mundo globalizado?
​O processo de globalização hoje é dirigido pelo mercado, que coloca todas as instituições — o Estado, a cultura — a seu serviço. Segundo o Evangelho, no deserto Jesus foi tentado a transformar pedras em pães, mas resistiu e disse que nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. A modernidade fabrica pães cada vez mais sofisticados, mas as tradições religiosas afirmam que há algo mais importante que o pão. Quando eu mais recebi ataques nas redes sociais foi ao postar um elogio do contentamento. Em nossa era, contentar-se é um dos maiores pecados que é possível cometer.