A culpa é só do Messi? – A Argentina paga caro por uma estratégia complexa demais

Messi. O craque fracassou mais uma vez com sua seleção na derrota por 3 a 0 para a Croácia (Foto: Getty Images)

Ricardo La Volpe deu a letra. O revolucionário técnico argentino previu que a Argentina faria boa Copa do Mundo desde que Jorge Sampaoli, seu técnico, não complicasse demais. O país tem grandes jogadores em clubes de ponta do futebol europeu – o principal deles, Messi. Mas a seleção argentina se propunha a um jogo muito diferente daquele ao qual seus atletas estão habituados em seus times – inclusive Messi. Sampaoli inventou. La Volpe estava certo. Pior do que o resultado de sua segunda rodada no Mundial, a derrota por 3 a 0 para a Croácia, a Argentina chega à última rodada desesperançosa porque apresenta um futebol complicado demais.

A seleção argentina repetiu um padrão na saída de bola contra os croatas. Três jogadores da defesa recebiam o apoio de Mascherano, zagueiro-volante, e esses quatro tinham de fazer a ligação direta com um ala bem posicionado no ataque. Quase ninguém se posicionava no meio-campo. Em vez disso, a Argentina tinha pontas bem abertos dos dois lados do campo, Messi e Meza a circular próximos da grande área croata, e Agüero enfiado entre os zagueiros. Podemos deduzir o que o técnico Sampaoli esperava disso: os alas receberiam a bola, puxariam a marcação croata até eles e passariam para Messi ou Agüero, ambos bem posicionados, chutarem a gol. Poderia ter dado certo. Não fosse o fato de que a Croácia estava do outro lado.

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Saída de bola da Argentina contra a Croácia (Foto: Reprodução)

A seleção croata tem um meio-campo de respeito. Rakitic é titular do Barcelona, Modric é titular do Real Madrid. Ambos marcam, avançam e finalizam. São meias que jogam de “área a área” – ou, se você quiser bancar o entendido, são meias “box to box“. Diante da estratégia formulada pela Argentina, a Croácia subiu a marcação e passou a sufocar a saída de bola dos hermanos. Não teve mais jogo. Argentinos tentavam começar as jogadas, mas recebiam enfrentamento desde a defesa. Aqui estamos falando não só de croatas que avançavam sobre argentinos para lhes roubar a bola, mas também de croatas que se colocavam na trajetória dos próximos passes para evitar que a Argentina se articulasse. A sufocada zaga argentina lançava mal, os alas não recebiam, e Messi se movimentava quase à toa, sem receber, à frente da grande área.

A postura ofensiva bolada por Sampaoli para a Argentina virava um problema na hora de montar a defesa. Conforme a Croácia roubava a bola e avançava em velocidade com Rakitic e Modric pelo meio, nenhum deles encontrava resistência de argentinos que já estivessem posicionados no meio-campo. Porque, afinal, a meiuca dos hermanos estava esvaziada. Os alas e mais argentinos tinham de recuar rapidamente a fim de conter os contra-ataques da Croácia. A proposta do técnico argentino era a de formar duas linhas de quatro, com Messi e Agüero relativamente liberados das funções defensivas. Mas a disposição dos jogadores em seu posicionamento ofensivo era tão esquisita que, na corrida para defender, eles acabavam tendo que executar movimentos diferentes toda vez.

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O mapa de passes de Mascherano no jogo entre Argentina e Croácia (Foto: ÉPOCA)

Complicou para você? Imagina para quem estava em campo. Se fosse um esquema complexo, mas adequado ao que os jogadores estão acostumados a fazer no dia a dia em seus clubes, não haveria tanto problema. Com muito treinamento e disciplina é possível executar todo tipo de movimento dentro do esquema tático proposto pelo professor. Sem treinamento, fica difícil. Se Sampaoli ainda estivesse no comando da seleção argentina desde a última Copa, vá lá, teria dado tempo para incutir nos atletas ideias para situações distintas. Mas Sampaoli foi contratado pela AFA, a federação nacional argentina, só em junho de 2017. A exato um ano do início da competição na Rússia. Mau planejamento por parte da cartolagem, ideias mirabolantes do treinador, má execução dos atletas. A derrota por 3 a 0 para a Croácia começou a ser construída há muito tempo.

O jogo ainda teve problemas. O goleiro argentino Caballero vacilou na saída de bola que gerou o primeiro gol – deu um balão esquisito e deixou fácil para o chutaço do croata Rebic. Mas a “culpa” – conceito que o torcedor tanto gosta – acabará por recair sobre Messi. O craque é alvo fácil para comparações com seu arquirrival Cristiano Ronaldo, cujos quatro gols fizeram Portugal somar quatro pontos e ficar próxima da classificação para as oitavas de final. Onde estava Messi, o todo poderoso, no momento em que sua seleção mais precisava de jogadas geniais, provocarão torcedores rivais. Ele estava lá. Movimentava-se para receber a bola, mas via sua Argentina ser sufocada pela Croácia desde o campo de defesa, embananada com uma proposta de jogo que nenhum jogador estava pronto para executar. Messi pagará caro pelas invenções de Sampaoli. Talvez devamos ser menos exigentes com ele neste contexto caótico.