A Guatemala é aqui

“…ou quase brancos quase pretos de tão pobres.
E pobres são como podres…”
”Haiti”, Caetano Veloso

Em 2017, cerca de 130 mil pessoas do chamado Triângulo do Norte da América Central — composto por Guatemala, El Salvador e Honduras — buscaram asilo nos EUA e no México. Em relação a 2011, essa quantidade de pessoas representa aumento de 1.500% daqueles que procuram abrigo em países onde possam viver sem as constantes ameaças de morte nas mãos de gangues e narcotraficantes. O Triângulo do Norte é formado por três narcoestados, países onde o tráfico de drogas e a violência das gangues em muito superam a capacidade dos diferentes governos de conter a infestação das drogas — não a infestação de imigrantes, como Trump se referiu a essa gente tão sofrida. Parte substancial da população desses países vive em estado de guerra. Os que podem fogem. A maioria, entretanto, vê seus pedidos de asilo negados e permanece detida na fronteira.

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Durante a gestão de Obama, milhões de imigrantes que tentaram entrar ilegalmente nos EUA foram deportados. Contudo, ao contrário do que tem sido propagado por defensores de Donald Trump, inclusive por gente de seu governo, não houve qualquer política voltada para a separação de pais e crianças como forma de frear a imigração. Muitos jovens e menores imigraram desacompanhados de seus familiares após Obama anunciar um programa de proteção e documentação provisória para crianças trazidas aos EUA por seus pais, o chamado Daca, que Trump eliminou no ano passado e hoje permanece em limbo judicial. Muitas das crianças desacompanhadas que vieram para os EUA em razão do Daca ainda estão sob custódia em solo americano. Não é delas que se trata a atual crise humanitária, as cerca de 2 mil a 6 mil crianças separadas e desaparecidas.

A atual crise sobreveio da política de “tolerância zero” anunciada em abril pelo governo Trump. Segundo a medida, qualquer pessoa — seja ela refugiada ou não — pode ser processada criminalmente caso cruze a fronteira ilegalmente. Antes, refugiados não eram prioridade dos agentes de imigração devido ao reconhecimento da tragédia que os levava a tomar a dramática decisão de deixar seus países. É fato que muitos refugiados tentam entrar nos EUA com suas famílias — quando os pais fogem da violência em seus países de origem, trazem consigo seus filhos. Ao exigir que todos sejam processados criminalmente de forma indiscriminada, famílias são separadas, pois, segundo as leis dos EUA, menores não podem ir para a prisão com seus pais. Em exemplo atroz de crueldade, a tolerância zero de Trump foi especialmente desenhada para separar as crianças e mandar uma única mensagem: não tentem cruzar a fronteira, ainda que isso seja sentença de morte em seus países de origem; caso o façam, apreenderemos seus filhos.

Após vários dias de convulsão, transtornos, indignação e pressão, Trump disse que porá fim ao caos desumano que criou.

Veremos. Mas vamos ao que nos toca. Entre as dez cidades mais violentas do mundo por número de homicídios, duas estão na Venezuela, cinco estão no México, e três no Brasil — isto é, todas estão na América Latina, ainda que não no Triângulo do Norte. Agora, imagine. Imagine que Belém, a décima cidade mais violenta do mundo, estivesse em Honduras. Imagine que Fortaleza, a sétima cidade mais violenta do mundo, estivesse em El Salvador. Imagine que Natal, a quarta cidade mais violenta do mundo, estivesse na Guatemala. Ou então, se preferir, imagine que o Rio de Janeiro, assoberbado pela violência, fosse parte do Triângulo do Norte. Todas essas cidades são, hoje, miniaturas de narcoestados. Não é, no mínimo, concebível que parte de seus habitantes mais pobres fugisse mesmo reconhecendo os enormes riscos que correria? Que fugisse por florestas e desertos, depositando suas esperanças nas mãos de gente sem escrúpulos para escapar da morte? Por muito menos, fogem brasileiros endinheirados para Lisboa e Miami.

Imagine agora que cidadãos de nossos mininarcoestados fossem cruelmente separados de seus filhos na fronteira, sem saber para onde seriam levados, com possibilidade mínima de rastreá-los após a captura. Seria possível sentir-se confortável com isso? Seria possível aceitar o discurso abjeto contra refugiados de certos presidenciáveis? Pois veja: a Guatemala é aqui.