A mania do melhor do mundo

O futebol tem algo de novelesco, de dramático, de patético e de trágico, de farsesco, de glorioso e de sacrificial. Se Nelson Rodrigues dizia que “a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”, o que dizer das proporções da Copa no mundo instantaneizado pelas mídias totais? Por um mês, podemos nos dedicar a confrontos entre Irã e Marrocos, Croácia e Nigéria, México e Alemanha, Japão e Colômbia, em vez de suportar encontros entre Kim Jong-un e Donald Trump. Uma guerra mundial em versão apaixonante e entretida. Ao mesmo tempo, o mundo quer saber quem é o melhor do mundo, o mundo ama consagrar o melhor do mundo e ama, com certo prazer e arrepio, vê-lo cair. A mania do melhor do mundo chega às raias da doença coletiva, talvez no Brasil mais do que em qualquer outro lugar.

Em Nairóbi, quenianos caminham em avenida com outdoor em que se destacam os astros da Copa Cristiano Ronaldo (Portugal), Lionel Messi (Argentina), Mesut Özil (Alemanha) e Neymar (Brasil) (Foto: SIMON MAINA/AFP)

Cristiano Ronaldo, que é o maior finalizador do mundo, que tem o physique du rôle de melhor do mundo, que se prepara atleticamente para ter a melhor performance física do mundo, que diz frontalmente que é o melhor do mundo, que joga num time que sabidamente não é o melhor do mundo, faz com perfeição, em campo, tudo aquilo que leva a crer que é o melhor do mundo. Os deuses do futebol conspiram a seu favor — os melhores goleiros frangam, a bola o procura com descarada parcialidade e, quando não o procura, é ele que está lá, implacável, com uma atenção focal absurda na direção do gol. Lionel Messi, que é o melhor e mais completo jogador do mundo, nunca diz nada para exaltar a si mesmo, parece um homem comum, baixo e atarracado, olhando para o chão, atingido pela sina fatídica de não levar sua seleção a nenhum título, como se a bola batesse sempre numa barreira enigmática que não se sabe se está dentro ou fora dele. “No es para mí”, já chegou a dizer sobre o fardo terrível de arcar com o destino futebolístico da Argentina nas costas.

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Neymar parece ter dedicado sua carreira a perseguir o título oficial de melhor jogador do mundo. Não deveria. Melhor jogador do mundo alguém é, chega a ser, fica sendo, sem que anuncie, sem que se envolvam nisso o time, a seleção e a mídia na mira ou na miragem do projeto pessoal. Messi nunca disse que ia ser, e Cristiano Ronaldo sempre disse que já é. Fazer crer que vai ser é propagar uma armadilha para si mesmo. O grande desejo é um segredo precioso a ser preservado da sanha furiosa do mundo. Neymar é, sim, o jogador vendido pelo Barcelona ao Paris Saint-Germain pelo preço mais alto do mundo, está no epicentro do redemoinho de sua capitalização empresarial e publicitária e é, ao mesmo tempo, o jogador no mundo atual que mais tem espírito de amador, de peladeiro, o gosto pelo drible, a pulsão gratuita do jogo pelo jogo. Esse paradoxo diz ainda algo sobre nós, sobre o Brasil, sobre a consequência e a inconsequência nacionais. O futebol é de uma complexidade machadiana.

Por isso mesmo Neymar está num momento crucial. A suas habilidades extraordinárias ele precisa acrescentar aquela inteligência do jogo que não falta normalmente nem a Messi nem a Cristiano Ronaldo, e que consiste em administrar suas próprias qualidades de maneira a levá-las a um grau mortífero. No momento em que os adversários assumem publicamente, sem mais segredos, que pará-lo com faltas continuadas e aplicadas com método é a melhor, ou a única, maneira de enfrentá-lo e neutralizá-lo, cabe a ele entender qual é o momento oportuno e crucial do drible e da retenção da bola. Sou torcedor santista desde criancinha e acompanho a carreira de Neymar desde seu primeiro minuto em campo. Para mim, ele é um dos motivos de alegria no mundo. Observo, por isso mesmo, que ele teve um grau maior de lucidez em campo quando jogou pelo Barcelona do que quando escolheu um time para chamar de seu, transferindo-se para o PSG e embicando de vez no programa explícito de premiação máxima.

O futebol é o jogo de bola que mais se parece com o real da vida nua, e começa embaralhando todas as cartas, minimizando os coringas, abolindo os trunfos. As seleções que na avaliação prévia mundial foram insistentemente apontadas como as amplas favoritas, Espanha, França, Alemanha e Brasil, passaram todas por maus bocados na estreia, cada uma a sua maneira. Pelo jeito, nenhuma estará na Rússia a passeio. A arbitragem de vídeo, que prometia acabar com o elevado grau de interpretação, de dúvida e de indecisão na avaliação de jogadas que caracteriza o futebol, produziu uma nova modalidade de incerteza: a interpretação da interpretação, em certos casos indecidível. Em horas seguidas de mesas-redondas, com o lance do gol da Suíça sendo repetido centenas de vezes, não se vê consenso sobre se Miranda sofreu ou não sofreu falta. Ou melhor, a conclusão é que sofreu, mas não sofreu, de que houve empurrão, que é falta, mas de que esse empurrão não chega a ser falta. O mais anormal, de fato, é que, diferentemente do cerrado empurra-empurra na área que caracteriza esse tipo de lance de bola parada, um suíço se insinuou na área sem ser percebido, deu um leve chega pra lá num zagueiro brasileiro e cabeceou sem ser incomodado.

Todos seremos surpreendidos. A realidade não é o que parece, e o futebol é de uma complexidade pirandelliana.

JOSÉ MIGUEL WISNIK É PROFESSOR DE LITERATURA DA USP, ENSAÍSTA E AUTOR DE VENENO REMÉDIO — O FUTEBOL E O BRASIL (Foto: Arquivo pessoal)