Aquilo que a Rússia produziu de melhor

A Rússia de Vladimir Putin foi a primeira seleção a se classificar na Copa. Mas nem o futebol nem Putin, por mais relevantes que sejam, representam a Rússia. Quem só agora tomou conhecimento do alfabeto cirílico não deve ter dúvida: nele foram escritas algumas das maiores obras da humanidade. Russos estão para a literatura como brasileiros para o futebol. Dominam o gramado há séculos, acumulam toneladas de troféus. Escritores são heróis nacionais. Ler escondido textos proibidos era o esporte preferido sob o comunismo. Qualquer acadêmico dirá que o Pelé das letras russas foi Pushkin. O maior clássico opõe os times de Tolstói e Dostoiévski, disputa interminável entre os fãs sobre quem foi o maior. Claro que a literatura russa é bem mais que um Fla-Flu.

Não teria havido as revoltas do século XIX, nem a Revolução Russa, nem o fim do regime soviético sem o ambiente fermentado pela literatura.

Não é coincidência que czares e comunistas tenham tentado — ou que o próprio Putin tente — controlar ideias e pensamentos. Nem que todos tenham fracassado, tamanha a importância das letras para os russos. Lá, mais que noutros países, literatura e política dependem uma da outra, se misturam, são vistas quase como uma coisa só. A simbiose começou na década de 1840, com intelectuais que concebiam a atividade literária como um sacerdócio secular, em que era impossível separar vida e arte — a intelligentsia. Julgavam toda obra e todo autor sob o prisma moral, portanto político. “A maior importância histórica desses escritores e pensadores foi ter desencadeado ideias destinadas a ter efeitos cataclísmicos não apenas na Rússia, mas muito além de suas fronteiras”, escreve o filósofo Isaiah Berlin em Pensadores russos, uma introdução sem igual à alma russa.

:: Mais colunas de Helio Gurovitz

Nascido em Riga, naturalizado britânico depois de fugir do comunismo, Berlin foi um expoente do liberalismo e defensor intransigente da democracia. Seu livro reúne seis ensaios em torno da intelligentsia original, entre eles “O ouriço e a raposa” (o clássico sobre Tolstói) e “Pais e filhos” (sobre Turguêniev). Seu tema é a geração de Mikhail Bakunin, Vissarion Belinsky e Alexander Herzen, que floresceu depois da vitória da Rússia sobre Napoleão, quando a tentativa de isolar o país teve o efeito oposto: ampliou entre os jovens o fascínio pelo romantismo alemão e engendrou a polarização entre direita (reacionários) e esquerda (socialistas), entre os que almejavam a pureza cultural (eslavófilos) e os que abraçavam a influência europeia (ocidentalistas), entre os que queriam derrubar o czar à força (revolucionários) e os que preferiam reformas graduais (liberais) — e entre outros adjetivos e pretextos usados para agrupar gente em torno de ideias.

Como Herzen, seu herói intelectual, Berlin desconfiava das abstrações ideológicas, da “inevitabilidade histórica” do progresso, da redução do ser humano a “portador ou agente de forças impessoais”. Politicamente, preferia a moderação hesitante e ambivalente de Turguêniev aos princípios irredutíveis e orgulhosos de Dostoiévski ou Tolstói. No fim da vida, depois da queda do Muro de Berlim, errou ao prever que o século XXI traria o desmoronamento das tiranias. Mas acertou na leitura de um passado que, contra suas previsões, se torna mais parecido com o presente de nacionalismo tacanho e avanço da irracionalidade. “O dilema dos moralmente sensíveis, honestos e intelectualmente responsáveis num tempo de polarização aguda de opiniões, desde aquele tempo, tornou-se mais agudo e global”, escrevia há 40 anos. “O caminho do meio é uma posição notoriamente exposta, perigosa e ingrata. A posição daqueles que, em plena luta, querem continuar a falar com os dois lados é interpretada como fraqueza, reprimenda, oportunismo, covardia.” Mas nada disso movia pensadores como Erasmo, Montaigne ou Spinoza; Herzen, Belinsky ou Turguêniev. A nenhum deles faltou a coragem de, em meio às trevas, proclamar a razão e a liberdade. Nem a Berlin.

Pensadores russos
Isaiah Berlin, Companhia das Letras
1988 | 320 páginas | Esgotado