As três principais formas de vigilância no Facebook

Ilustração (Foto: Ilustração Slate)

 

Em 2008, eu era bastante cuidadoso em relação ao Facebook. Via seus riscos — e seus benefícios — como estritamente sociais. Estabeleci (e mantenho até hoje) uma rígida regra sobre interagir com estudantes na rede social. Sabia que, ao adicionar alguém, poderia conhecer aspectos de sua vida para os quais  não  fui convidado. Naqueles primeiros dias da rede social, poucas pessoas desenvolveram normas e hábitos paraguiar o uso do serviço.   Não queria saber com quem meus estudantes estavam namorando, o que vestiram para o Halloween ou — acima de tudo — o que achavam sobre meu curso. Eu também era bastante cuidadoso sobre as informações que postava sobre mim mesmo.

Pensei, corretamente à época, que tudo o que o Facebook poderia saber sobre mim era o que escolhia revelar para e por meio da rede social. Minha idade, status de relacionamento e orientação sexual  permaneceram em branco durante os meu sprimeiros dois anos de atividade. Então, um dia, achei por bem sair do armário como um heterossexual casado de mais de 40 anos. Quando eu cliquei em “casado”, algo estranho aconteceu. O espaço dedicado à publicidade no meu perfil se encheu de anúncios que me convidavam a ter um caso. Desconfiado, removi a informação de que estava casado da minha conta. Os anúncios desapareceram. No começo do Facebook, o registro de dados e anúncios direcionados eram tão descuidados que o site meramente filtrava um ou dois atributos e nos empurrava anúncios baseados neles. Somado a isso, as companhias que escolhiam anunciar no   Facebook eram, com frequência, inconvenientes.

Por volta de 2010, tudo começou a mudar. Como muitos, meu nível de conforto com o Facebook havia crescido. Eu sucumbira às constantes cutucadas e sugestões de novos amigos. Embora evitasse adicionar estudantes, minha rede de amigos crescia. Mais de minha atividade política e social migrava para o Facebook. Estar sem a rede social em 2010 era sinônimo de perder o que pareciam conversas e eventos essenciais. Até mesmo meus pais haviam se tornado adeptos do site. A base de usuários do Facebook espalhou-se para  todos aqueles que  caminham sobre duas pernas e chegou a outros países, deixando seus antigos concorrentes, como o MySpace, sem rumo e sem dinheiro.

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Para além da vida e dos hábitos dos usuários, algo mais importante estava acontecendo na empresa. Em 2008, Mark Zuckerberg havia conseguido fisgar Sheryl Sandberg, do Google, para que ele assumisse a parte comercial da companhia. Em 2010, Sandberg construíra um eficiente sistema de dados e anúncios. As propagandas de minha rede passaram a refletir meus interesses profissionais e minhas conexões sociais. Um anúncio regular dizia respeito a uma cara carteira de couro como aquelas usadas por professores em filmes. Não combinava perfeitamente com meus interesses (ou com professores em geral, dos quais poucos gastariam US$ 250 em uma jaqueta de  couro). Mas, sem dúvidas, eram anúncios melhores do que aqueles que clamavam para eu trair minha mulher só pelo fato de ter uma. Para atingir a missão de direcionar publicidade de forma eficiente, Sandberg precisava de mais e melhores dados sobre o que os usuários faziam, pensavam e queriam comprar. Embarcou,   então, em uma série de expansões na capacidade da rede de rastrear e fazer um perfil dos usuários. Não é coincidência que, em 2010, o Facebook tenha divulgado pela primeira vez seus lucros. É seguro afirmar que, sem Sandberg e suas formidáveis visão e capacidade   de gerenciamento, o Facebook seria uma companhia falida e sem importância hoje em dia.

A empresa de Zuckerberg é o sistema de vigilância mais difundido da história. Mais de 2 bilhões de pessoas e milhões de organizações, empresas e movimentos políticos oferecem detalhes sobre suas preferências, suas predileções e seus planos a um serviço comercial. Além disso, o Facebook rastreia todas as conexões e interações entre essas pessoas e grupos, prevendo futuras conexões e guiando potenciais interações. A rede até mesmo compila informações sobre aqueles que não têm uma conta.

O site nos expõe a três grandes formas de vigilância. Podemos pensar nelas como três poleiros ou pontos de vista. Entidades políticas e comerciais são capazes de explorar o poder  de  direcionamento e de predição do Facebook por meio de seu sistema de anúncios. Por meio do que revelamos em nossos perfis, outros usuários podem nos ver e monitorar   enquanto começamos ou terminamos um relacionamento, passeamos, recomendamos e   comentamos em vários posts, expressamos nossas opiniões e preferências. Governos utilizam o Facebook para espionar cidadãos ou qualquer um considerado suspeito — até mesmo estabelecendo contas que parecem ser de amigos ou aliados ou invadindo o sistema de segurança para encontrar dados diretamente.

Em nome de seus anunciantes, a própria empresa conduz uma investigação comercial de seus usuários. No entanto, ela não tem incentivos para oferecer a terceiros acesso aos dados usados para aumentar a visibilidade dos posts dos usuários e dos anúncios diretos.O valor comercial do Facebook se ancora no completo controle desse precioso registro de comportamento humano. Mas a interface oferecida tanto a anunciantes quanto àqueles que administram páginas lhes permite aprender bastante sobre sua audiência e mensurar o nível de engajamento gerado por seus posts. Para traçar um perfil exato dos usuários, o Facebook usa  muitos  dos  dados fornecidos pelas pessoas: informações biográficas, registros de interações, textos de publicações, localização (através de aplicativos equipados com funcionalidades de GPS) e “gráficos sociais” — um mapa da relação entre os itens do Facebook, como fotos, vídeos e grupos, e o perfil de seus 2,2 bilhões de usuários.

Essa combinação de informações permite à empresa prever comportamentos e interesses dos usuários baseada no que pessoas com atributos similares e conexões parecidas querem, pensam e fazem. Além dos dados que o Facebook reúne a partir de seus serviços principais (Facebook, Messenger, Instagram, WhatsApp etc.), é permitido a outras empresas entrar diretamente em contato com a rede social por meio de um serviço chamado Open Graph. É assim que o Spotify, um aplicativo de música, permite ao usuário se registrar com o nome e a senha utilizados no Facebook. Isso faz do Spotify uma rede social, na medida em  que a música que uma pessoa escuta via aplicativo torna-se  disponível a amigos que  também usam o  serviço, e os hábitosmusicais desses amigos ficam disponíveis para outras pessoas também.

Isso cria uma rede de interesses que pode estimular descobertas ou recomendações entre pessoas com gostos musicais parecidos. Para o Spotify, esse serviço amplia a capacidade de encontrar novos usuários e manter os antigos. Para o Facebook, significa que mais interações — mesmo fora da rede social — integram-se a um grande gráfico social e, dessa forma, passam a ser úteis para traçar perfis e direcionamentos. Por meio de parcerias firmadas com o Open Graph e o uso de ferramentas de monitoramento instaladas no navegador dos usuários, o Facebook é capaz de reunir grandes volumes de informação pessoal daqueles que raramente o acessam. Basicamente, não existe modo de escapar inteiramente do monitoramento imposto pelo Facebook.

Esse tipo de vigilância comercial, feito por uma única empresa, parece quase inofensivo. O Facebook não tem mecanismos de controle, então não pode abusar de seu poder de modo a prejudicar pessoas ou negar liberdade e propriedade. Se, por acaso, uma pessoa for perfilada de maneira equivocada e receber anúncios indevidos, a companhia apenas não lucrará com essa ação. No entanto, quando esses dados são bem utilizados pelo Facebook, argumentam seus executivos, oferecem uma experiência mais agradável e relevante aos  usuários. Nenhum dono de gato quer ver um mural de anúncios dedicados a ração canina.   Vegetariano algum quer  ver anúncios de hambúrgueres. E nós geralmente preferimos ver posts de pessoas de quem gostamos e com quem concordamos.

Embora existam problemas com esse tipo de filtro, nenhum deles representa um risco imediato ou perigo aos usuários. Porém, o Facebook reúne e utiliza a maioria dessas informações sem nosso conhecimento ou consentimento. A rede social não nos oferece qualquer vislumbre de como nossas atividades são usadas. Ela não oferece modo algum de nos ausentarmos dessa constante vigilância. Em geral, usuários entendem que a rede social detém e utiliza determinados atributos que eles postam em seus perfis. Mas certamente não têm uma imagem clara da profundidade e da amplitude das atividades da empresa. Usuários raramente são informados, por exemplo, de que o Facebook compra preciosas informações sobre compras em cartão de crédito e dados de perfis fornecidos por grandes escritórios de marketing. Para descobrir sobre isso, um usuário precisaria vasculhar a página de ajuda da rede social. A combinação das informações que oferecemos, da capacidade de nos rastrear no mundo real e virtual e dos dados de crédito adquiridos pela rede social fortalece o Facebook e nos enfraquece.

O principal perigo da vigilância comercial do Facebook repousa sobre a concentração de poder. Talvez à exceção do Google, nenhuma outra empresa do mundo pode sequer cogitar montar um sistema personalizado de dossiês tão rico, o que só reforça a primazia comercial do Facebook na publicidade (enfatizo de novo que boa parte desse poder é compartilhada com o Google, que usa outros meios de monitoramento, mas gera os mesmos riscos e problemas). O fato de não podermos esperar que outra companhia digital tenha tamanha produção de dados sobre tantas pessoas e inúmeras interações significa que – sem uma forte regulação – rivalizar com o Facebook será algo raro ou inexistente em um futuro próximo.

Mas existem outros perigos no fato de o Facebook ter e armazenar tantas informações sobre nós. Eles nascem a partir das duas outras posições de vigilância: a de colegas e a do Estado. Comportamentos comuns de amigos tiram de nosso controle informações e imagens, independentemente do quão cuidadoso o indivíduo seja em relação a sua privacidade.   Alguns usuários podem agir com malícia, especialmente quando um relacionamento não dá certo. Outras pessoas podem ser menos seletivas na hora de marcar pessoas em fotos, as quais podem preferir não ser identificadas fora de um pequeno círculo de amigos.

Além disso, perfis podem ser usados para linchamentos virtuais, assédios ou exposições de   informações pessoais para desconhecidos. O que publicamos no Facebook geralmente é cuidadosamente selecionado e administrado, um exaustivo exercício de autopromoção e autoafirmação. Isso significa que perfis na rede social raramente sãoretratos fiéis de nossa realidade. Essa é uma das razões pelas quais o Facebook percorregrandes distâncias   para  monitorar e registrar nossas verdadeiras atividades e movimentos. Talvez desejemos  que   todos  nos vejam como veganos. Mas, em um momento de fraqueza, podemos deslizar e comer um hambúrguer. Não deveríamos ter de revelar tais momentos a nossos amigos. Mas a  rede social certifica-se de nos conhecer melhor que nossos amigos e familiares.

O fato de perfis retratarem seres humanos complexos de forma imprecisa e inautêntica pode fazer com que outros tenham ações e reações injustas e prejudiciais. Piadas podem ser   mal interpretadas. Declarações baseadas em opiniões frágeis podem estimular desentendimentos que geram conflitos sociais. O Facebook foi pensado para limitar nossas interações e nos expor a quem confiamos. No entanto, ele já não funciona assim.

A despeito das promessas feitas, há muitas maneiras pelas quais usuários perdem o controle de suas informações. A jornalista Kashmir Hill noticiou em 2017 um curioso fenômeno. O Facebook recomendava a ela adicionar pessoas que mal conhecia ou quenem mesmo   conhecia. A jornalista perguntou a seus leitores se eles tiveram experiências parecidas, especialmente qualquer uma que tivesse levado a encontros via Facebook constrangedores ou potencialmente perigosos. Assistentes sociais e terapeutas foram conectados a clientes apesar de nunca terem trocado informações privadas com eles. Um doador de esperma recebeu a sugestão de se conectar ao filho de um casal para quem havia doado espermatozoides, embora os pais desejassem que o doador não tivesse contato com a criança. Hill descobriu que uma funcionalidade do Facebook chamada “Pessoas que você talvez conheça” incentivava usuários a baixar a agenda de contatos de seus computadores ou celulares. Esses endereços de e-mail e números de telefone serviam como identificadores de perfis para o Facebook. E, em razão de o gráfico social traçar conexões entre as contas, a funcionalidade tinha a habilidade deconectar pessoas que eram muito distantes, estranhas, hostis ou até mesmo violentas umas com as outras.

Como não podiam controlar as informações presentes nas agendas uns dos outros, os usuários não poderiam escapar da ferramenta. Eles estão à mercê de outras pessoas e de sua compreensão sobre como o Facebook utiliza informações pessoais. “Uma relação casual de 2008, uma pessoa de quem você comprou um sofá em 2010, um locador de 2013: se eles salvaram seu número ou vice-versa, o Facebook poderia estabelecer a conexão se uma  das partes baixasse os contatos”,  escreveu Hill. “O  acúmulo dos contatos de centenas de pessoas significa que o Facebook provavelmente conhece cada endereço em que você morou, cada e-mail que você já usou, cada número de celular que você já teve, todos os seus apelidos, qualquer perfil nas redes sociais associado a você, todas as suas antigas contas de mensagem instantânea e qualquer outra coisa que alguém poderia acrescentar sobre você na agenda do telefone.” E não existe nada quequalquer um possa fazer a respeito. Usuários são convencidos no momento em que se registram no Facebook a baixar a lista de contatos para o bem da comodidade. Porém, o Facebook nunca convida seus usuários a conhecer as consequências dessas ações.

O uso da rede por governos é ainda mais problemático. Estados teriam o poder e o direito de aprisionar e cometer violência contra cidadãos e aqueles vistos como uma ameaça. O poder do Estado influencia o Facebook de duas maneiras. Na primeira e mais comum, temos visto líderes autoritários em diversos países monitorarem as atividades da rede social e rastrear dissidentes suspeitos e jornalistas. Eles usam o Facebook e o WhatsApp para gerar campanhas difamatórias contra inimigos e críticos. Estados podem usar perfis falsos para se infiltrar em grupos ligados a ideias reformistas ou que busquem desafiar o governo. Até mesmo grupos que apoiam a causa LGBT podem sofrer invasões. Em 2013, revelações feitas por Edward Snowden de que os serviços de segurança e inteligência dos Estados Unidos e do Reino Unido haviam conseguido acessar os fluxos do Facebook, do Google, da Apple, da Microsoft, do Yahoo e de outras empresas mostraram quão vulneráveis são os   usuários frente ao poder de vigilância do Estado. Enquanto o Facebook tiver tamanha riqueza de fontes, Estados tentarão invadir o sistema.