Contra o paredão do Irã, a Espanha só venceu porque a fúria se sobrepôs ao tiki-taka

Espanha x Irã. 19 dos 22 atletas concentrados no terço defensivo iraniano: um retrato fiel do que foi o jogo (Foto: Getty Images)

 

Quem ouve desavisado que a Espanha jogará contra o Irã, numa Copa do Mundo, imagina um massacre. Colabora para essa previsão o talento dos espanhóis, que contam com nomes como Iniesta e Isco. Eles comandam a equipe do toque de bola que vem de uma série de 22 jogos sem perder. Mas os iranianos mostram que o tempo em que as seleções sem tradição eram amassadas ficou para trás. Tiveram, na organização, a chave para transformar o duelo em uma armadilha em que prevaleceu a força de Diego Costa, homem do gol.

O plano do técnico português Carlos Queiroz para a seleção iraniana era nítido. E foi cumprido à risca. Talvez inspirado no compatriota José Mourinho, um dos primeiros a apresentar uma forma de anular o tiki-taka dos espanhóis – na semifinal da Liga dos Campeões de 2010 contra o Barcelona, a Inter de Milão treinada por Mourinho recuou a marcação e venceu no contra-ataque. A estratégia pressupõe “dar” a bola ao adversário, como num aviso: “fiquem tocando que ficaremos por aqui”. Depois, defender bem a ponto de transformar o campo numa clausura. De tão defensiva, a estratégia ganhou até apelido: “estacionar o ônibus”. Foi assim que a imprensa inglesa chamou o jogo de Mourinho em 2010. A expressão ficou.

A ideia foi executada à risca e teve um tempero extra: preencher a grande área com muitos jogadores e deixá-los imóveis, quase que numa barreira. O sistema do Irã, o 4-1-4-1, foi preservado. Mas para cumprir a tática, os pontas fizeram um movimento peculiar. Taremi e Ansarifard voltavam à defesa junto aos laterais espanhóis, quase que em alinhamento com os quatro defensores. A impressão era de que havia seis jogadores dispostos a ficar lá, custasse o que custar. Eles formavam o ônibus estacionado à frente dos garotos espanhóis.

Frente a um paredão muito bem disposto, a Espanha não conseguiu converter seus passes em chances de gol. A cada momento que chegava perto da área, encontrava pelo menos cinco iranianos perto da bola, prontos para cercar e tentar roubar. Por isso o jogo é tão difícil para os grandes nessa Copa. Frente a defesas fechadas, é preciso muita paciência e muita disposição para tocar a bola de um lado para o outro até que a brecha aparecesse. Acontece que o Irã nem sequer brecha deu. Outros recursos tiveram de ser usados.

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O posicionamento médio da Espanha contra o Irã (Foto: ÉPOCA)

Era preciso buscar ferramentas para transpor esse bloqueio. A primeira delas era avançar com os zagueiros dentro do campo de ataque. A lógica é simples: com mais gente disposta a tocar a bola, os iranianos se veriam mais pressionados. No tatiquês, é a chamada superioridade numérica. Conceito que conta o número de jogadores em um determinado setor. Se algum time concentra mais pernas num determinado espaço, certamente alguém sairá livre e poderá bagunçar o oponente. Os beques espanhóis viraram meias articuladores. Liberavam Busquets e Iniesta para preencher com mais gente a área. No mapa de posicionamento médio do Wyscout, os 11 espanhóis estão concentrados numa faixa muito restrita. O jogo tivesse aconteceu numa lacuna de 15 metros.

A outra arma experimentada pela Espanha foi a finalização de longa distância. Excluindo o tento anotado por Diego Costa, foram apenas duas finalizações certas. Ambas de fora da área. É uma ferramenta para transpor as fortes defesas que a Copa do Mundo apresenta, pois lida muito mais com o pulo do goleiro que a organização dos zagueiros. Com Isco e David Silva, certamente havia a técnica necessária para transformar o recurso em perigo de gol.

Nada parecia furar o bloqueio do Irã. Até Diego Costa aproveitar um rebote e, meio sem jeito, fazer o gol salvador. Pode parecer artifício dos centroavantes de qualidade duvidosa, mas a finalização com mais vontade que capricho é predominante na Copa. Se não há espaço e muitos adversários estão em cima, não há técnica que resolva. O jeito foi apelar para a força. Diego foi mais rápido que os zagueiros no raciocíno da jogada e mais forte para proteger a bola, girar e bater. Um estilo brigador, raivoso, que quer o gol a qualquer jeito e não se vê acanhado ao tentar um chute. É a fúria que o tiki-taka precisa para não se tornar inofensivo.