Cristiano Ronaldo salva mais uma vez – até quando o gajo conseguirá carregar Portugal?

Cristiano Ronaldo. O atacante português já fez quatro gols nesta Copa do Mundo – e tem tudo para continuar (Foto: Getty Images)

“Não existem dois jogadores no mundo como Cristiano Ronaldo“. A frase é de Hervé Renard, treinador francês que hoje dirige a seleção de Marrocos – e antes dela passou por equipes francesas e outras seleções africanas. O técnico estava preocupado, às vésperas da Copa do Mundo, com o confronto que tinha pela frente com o brilhante atacante português. “É importante não minimizar seu impacto, mas avaliar, analisar e dar a ele toda a importância que merece”, disse Renard ao Goal. Pois bem. O duelo aconteceu. Autor de três gols na estreia contra a Espanha, ele fez mais um diante do Marrocos. Portugal ganhou a partida. Torcidas do mundo todo proclamam com antecedência o gajo como nome desta Copa. E agora é a nossa vez de avaliar, analisar e dar a ele a importância que tem.

Mais importante até do que o 1 a 0 sobre Marrocos, o jogo mostrou desafios que Ronaldo terá. A seleção portuguesa não apresentou bom futebol contra a marroquina. Aqui precisamos ter cuidado para interpretar corretamente a conclusão. O principal indício de que Portugal foi mal em campo não tem a ver com o fato de que passou boa parte do tempo a se defender de Marrocos. A equipe treinada por Fernando Santos não tem a imposição como uma característica. Ela não sufoca adversários em seu campo de defesa – como fez a Espanha contra o Irã horas depois. Em vez disso, investe nas roubadas de bola na faixa intermediária do campo e no avanço veloz, de modo a pegar rivais no contrapé sem que eles tenham tempo para se organizar. Portugal não foi mal porque foi atacada com frequência. Foi mal porque não soube praticar o jogo a que se propõe.

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O posicionamento médio de Portugal contra o Marrocos (Foto: ÉPOCA)

Cristiano Ronaldo tem papel fundamental neste jogo português. Ele é o homem que tem força física, fôlego para chegar ao ataque rapidamente, qualidade técnica para finalizar. Não há outro jogador como ele à disposição de Fernando Santos – assim como não há dois dele à disposição de nenhuma outra seleção no mundo. Mas a partida com Marrocos deu razões para crer que esse jogo pode não funcionar a contento. Principalmente porque Portugal não é Real Madrid, equipe de futebol ofensivo e vistoso. Com a camisa madrilenha, além de ter colegas muito mais técnicos e capazes de ajudá-lo no ataque, o posicionamento de todo o time faz com que o craque pegue na bola em uma posição adiantada e privilegiada. Isso não acontece na seleção portuguesa. Nela, como vimos no confronto com os marroquinos nesta Copa, Ronaldo começa suas jogadas em faixa anterior do campo para se encaixar na proposta do treinador.

Obtidos por meio do Wyscout, parceiro de ÉPOCA na cobertura da Copa do Mundo, os mapas de calor do gajo ajudam a ilustrar essa diferença no posicionamento dele. Repare como no jogo entre Barcelona e Real Madrid, válido pelo Campeonato Espanhol em seu término, há pouco mais do que um mês, Ronaldo se fez presente em dois pontos específicos: à esquerda da grande área e à direita da pequena área. A bola vem até ele. Dá para aguardá-la no melhor lugar possível para a finalização. No confronto entre Portugal e Marrocos, é outra história. Ronaldo se movimentou muito para começar as jogadas. As manchas no mapa de calor mostram que o português esteve na faixa intermediária, às vezes dentro da área, com alguma frequência também no campo defensivo. É o reflexo da diferença entre as propostas de jogo de Real Madrid e Portugal.

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O mapa de calor de Cristiano Ronaldo em Barcelona x Real Madrid (Foto: ÉPOCA)

É por essas e outras que Ronaldo e sua seleção podem cambalear nos jogos a seguir – um decisivo contra Irã para conseguir a classificação, outro possivelmente contra Rússia ou Uruguai nas oitavas de final. O jogador tem uma condição física invejável, conseguida por meio de intenso esforço e sacrifício desde a adolescência. Mas já tem 33 anos. É normal que a esta altura da carreira o atleta entre em declínio físico e já não consiga mais dar os mesmos piques da juventude. É inevitável até para Cristiano Ronaldo. O atacante fez muito sucesso no Manchester United com suas corridas em diagonal, mas foi mudando suas características para se tornar um homem que joga mais próximo da área no Real Madrid. Justamente porque envelheceu e precisou se adaptar a um novo jogo para continuar a render. Agora, em Portugal, exige-se dele o fôlego do jovem que acabava de chegar ao Manchester United em meados de 2000.

Apesar de não ter desempenhado bem dentro do jogo a que se propôs, Portugal manteve certa solidez defensiva e venceu o Marrocos de Hervé Renard por 1 a 0. Como? Bola parada. Ronaldo fez o gol num cabeceio depois de um escanteio. Ele já tinha empatado para Portugal contra a Espanha no último minuto em uma cobrança de falta. Bola parada. Numa Copa em que pequenas e grandes seleções formam paredões à frente de suas áreas, escanteios e cobranças de falta viraram recursos valiosíssimos para chegar ao gol. Caso os portugueses não consigam melhorar seu rendimento dentro do “rouba e corre”, é da bola parada que podem sair os gols necessários para continuar a avançar na competição. Ela também fará bem a Cristiano Ronaldo. A força privilegiada o torna perigosíssimo em escanteios e faltas. E aí a chance de torcidas do mundo inteiro continuarem a proclamá-lo como melhor da Copa sobem muito.

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O mapa de calor de Cristiano Ronaldo em Portugal x Marrocos (Foto: ÉPOCA)