Grávida, Letícia Colin explica como pretende afastar o filho do machismo

Leticia Colin (Foto: Reprodução/Instagram)

 

Sempre muito discreta, Letícia Colin fala pouco sobre sua pessoal, mas não conseguiu esconder por muito tempo a barriguinha de sua primeira gravidez, um menino, fruto do relacionamento com o ator Michel Melamed. Enquanto aproveita as férias em Londres ao lado do marido, ela reflete sobre o momento crucial que estamos vivendo em que o feminismo tem mostrado seu poder e o machismo tenta contra-atacar ferozmente.

Empoderada, a atriz diz que pretende afastar seu filho do machismo com muita conversa e deixar bem claro para ele que não existe um gênero mais correto, inteligente ou sensível do que o outro e vai ensina-lo a equalizar as vulnerabilidades.

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Todo mundo pode sentir medo, ser frágil, ter raiva e ficar frustrado. Eu acho que quando isso começa a ser evitado, endurecido ou sufocado nas criações, essa agressividade, esse sofrimento, vai se tornando algo que maltrata muito o ser humano e vai transformando isso em neuroses, o que a gente vê nas atitudes violentas do machismo. Então eu acho que temos de ter fluidez para conversar sobre sentimentos, sensações, sexualidade – que é a relação com o seu corpo –, com o seu ser, com o que você deseja, cria, sonha”, explica.

Ela salienta que os pontos de vista todos são válidos, cada um com uma versão sobre a história, sobre o jeito de viver.

“Todo mundo tem direito à mesma fatia de vida, de se expressar, ser visto, ser bem tratado, encorajado, elogiado, respeitado, dos deveres e de pagar as suas contas”, completa.

Com isso, ela acredita que as mulheres conquistarão alguns espaços na sociedade que ainda são perigosos para elas como as ruas e dentro de suas próprias casas, já que os números de feminicídio praticados dentro de casa ainda são alarmantes no Brasil.

A incidência de episódios de violência, abuso e agressão acontecem em casa. É muito embrionário ainda esse avanço, essa conquista da liberdade. Em casa, muitas vezes a mulher não tem autonomia para se expressar, não é encorajada, é ameaçada, coagida, perseguida. Com certeza, a qualquer hora do dia, uma rua é muito mais perigosa para uma mulher do que para um homem, então, tanto espaços públicos como privados continuam sendo ambientes inseguros para nós. A caminhada é imensa sobre essa educação muito machista, que valida esse absurdo do homem agredir a mulher e ‘objetifica-la’ e interferir na vida dela.”

Leticia Colin (Foto: Fabio Rocha)

 

Mulheres no comando

A nova série Onde Está Meu Coração, que ainda não tem previsão de estreia e estará disponível no Globoplay, traz uma nova experiência para Letícia interpreta uma jovem médica de classe média, de uma família bem estruturada, que luta contra a dependência química. Só aí a vivência já seria única, porém este trabalho traz um algo a mais: a maior parte dos profissionais que estão por trás das câmeras são mulheres.

A artista acredita que este é um reflexo do avanço do feminismo em que prega que os dois gêneros são iguais e assim as mulheres devem ocupar cargos de todos os tipos, principalmente os cargos de criação de ideias, de pensamento crítico e de narrativas.

Em sua maioria, os autores mais conhecidos são os homens da literatura. As mulheres nunca foram incentivadas a estudar, a se desenvolver, a sair de casa, trabalhar, pelo contrário: eles queriam manter a mulher em casa. Aquela história que a gente sabe. Então, tê-las numa posição criativa, de formação de equipe, de direção, de digerir um projeto do começo ao fim, é conceituar um projeto como este que a Luisa Lima [diretora artística] fez agora nessa série. Quem assistir vai ver que o resultado belíssimo. É um presente para nós, uma maravilha, porque os pontos de vista são ricos, são diversos, são complexos, são humanos. Todo mundo ganha com narrativas plurais, com sensibilidade e honestidade para contar uma história”, discursa.

Letícia acredita que exista muita diferença no resultado final de uma obra quando esta é dirigida por uma mulher se comparada a um homem, mas não apesar por uma questão de gênero ou sensibilidade, mas porque o ser humano é muito diverso. Para ela, o mais importante é que haja uma multiplicidade de pensamentos.

“Eu adoro filmes femininos feitos por mulheres. Acho que o ser humano é infinito na possibilidade de criações e de características, mas acho que o importante é que eles tenham voz. Durante muito tempo a narrativa masculina patriarcal predominou, os personagens masculinos eram sempre os protagonistas, os melhores, mais inteligentes, fortes e bem-sucedidos. Poxa, a gente quer, merece e precisa ver mais a vida como ela é, com tantas narrativas interessantes de personagens femininas protagonizando, puxando esse barco, lutando, vivendo. A gente quer acompanhar essas histórias, que são histórias humanas. Eu acho que quando a gente tem menos histórias criadas e desenvolvidas pelas mulheres, perdemos muito porque somos parte do planeta, das relações, das pessoas, então, é uma questão de semear o humano para que ele se multiplique, ganhe voz, força e holofote”, acredita.

Na trama, a personagem Amanda tem a grande característica de querer o melhor, trabalhar sempre na máxima potência. Para isso, a atriz se dedicou profundamente a ela e diz que a relação com seu papel não termina com o fim do expediente, mas ultrapassa essa barreira porque toca sua vida, sua alma, seus conflitos pessoais, as relações familiares e sua maneira de ver o mundo.

“A Amanda como médica também tem isso, as histórias dos pacientes, os seus sintomas, suas dores e sofrimentos atravessam a vida dela, passam a fazer parte porque ela não criou uma casca, não se fechou em uma coisa fria, que talvez até pudesse ser mais fácil, teoricamente, de viver a vida. Ela se corrói pelo o que vivencia, então é difícil pra ela, isso vai fazendo com que ela fique muito desestabilizada emocionalmente. Isso já é diferente de mim, acho que com o tempo eu fui aprendendo a poupar a minha energia, entrar e sair da cena do personagem. Mas eu entendo quem trabalha com o coração muito aberto, acho que somos parecidas nisso.”

Por fim, Letícia conta que conversou com pessoas que foram adictas durante muitos anos no mundo das drogas para criar sua personagem, além de trocar ideias com psiquiatras, pessoas que trabalham em clínicas de reabilitação e familiares de pessoas envolvidas com entorpecentes.

É muito enriquecedor porque a gente compartilha uma vivência muito profunda, dolorosa, complexa. Eu fiquei muito transformada com esses depoimentos, o encontro real com essas pessoas, esses personagens da história que realmente viveram isso me fizeram compor uma personagem que fosse humana, imperfeita, frágil, vulnerável, real. As pessoas não calculam que vão passar por isso, o quanto que elas vão sofrer, o quanto vão ter a vida estragada por essa nova realidade da dependência. Você vive em função de conseguir mais substância”, lembra.

Leticia Colin (Foto: Fabio Rocha)

 

Leticia Colin e Daniel de Oliveira (Foto: Fabio Rocha)