Grito político, silêncio infame

A gravação de crianças imigrantes chamando desesperadamente por seus pais depois de ser separadas deles por autoridades de fronteira dos Estados Unidos, divulgada nesta semana, talvez seja o grito político mais contundente contra o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desde sua posse.

O áudio é lancinante. “Mami! Papá!” As crianças gritam, entre soluços, revelando sua origem latina. Um agente da imigração é ouvido debochando: “Temos uma orquestra aqui”.

Os levantamentos mais recentes apontam que 2.600 famílias de imigrantes foram separadas nos últimos dois meses em razão da política de tolerância zero determinada por Trump.

Um graduado articulista da imprensa americana criou a imagem mais forte para definir as crianças apartadas dos pais. Não são migrantes. Não são detidos. Elas são reféns, definiu Frank Bruni.

Trump usou o episódio para forçar a aprovação de uma nova lei de imigração, quiçá conseguindo viabilizar o muro que prometeu erguer nas fronteiras americanas. Apesar da promessa de revisão da separação entre pais e filhos na quarta-feira, o legado do atual presidente dos EUA parece caminhar para um monstruoso monumento à intolerância, ao radicalismo e ao desrespeito dos direitos humanos.

A grave crise dos imigrantes detidos tem recebido inexplicável silêncio das autoridades brasileiras. Uma condenação pública deveria ter sido feita em solidariedade aos latinos vítimas de uma ação desumana.

A omissão do presidente Temer e do Itamaraty se agrava quando autoridades consulares confirmam que pelo menos nove crianças brasileiras foram separadas dos pais ao atravessar a fronteira dos EUA. Elas estão em abrigos nos estados da Califórnia e do Arizona. Têm entre 6 e 17 anos. Algumas são irmãos e choram juntas pela distância da família.

As crianças chegaram aos EUA com os pais ou guardiões legais, que foram processados por travessia ilegal da fronteira e enviados a prisões — algo que não ocorria antes do governo Trump. Crianças, por lei, não podem permanecer nesses estabelecimentos e por isso são encaminhadas a abrigos espalhados pelo país.

O governo Temer informou que os consulados têm buscado certificar-se de que os brasileiros detidos estão sendo mantidos em situação de dignidade nas prisões, de que estão com saúde e recebendo alimento. E que consultam se eles têm acesso a assistência jurídica quando necessário.

A resistência do Brasil em emitir condenação enfática aos Estados Unidos é atribuída à proximidade da visita que o vice-presidente americano, Mike Pence, fará ao país.

No entanto, não faz sentido responder com luvas de pelica a um boxeador agressivo. O silêncio de Temer e do Itamaraty é constrangedor por refletir uma opção política de submissão a atitudes sem amparo nas leis internacionais contra cidadãos brasileiros em situação de fragilidade.