Gucci desafia “masculinidade tóxica” em seu último desfile

Gucci fala de masculinidade tóxica em seu último desfile (Foto: Imaxtree)

 

Modelos carregando suas próprias cabeças, dragões, camisas de força, manifestos pela igualdade de gênero. Os cinco anos de Alessandro Michele na direção criativa da Gucci tem sido nada menos do que disruptivo. Em 2015, numa manobra pouco comum em grandes marcas de luxo, a Gucci, ao invés de convidar um designer consagrado, com currículo e experiência de direção em outras grifes competidoras, decidiu recrutar dentro de “casa”. Michele, então diretor de acessórios, assumiu a direção criativa da Gucci com pouco alarde, fazendo sua estreia em janeiro de 2015, justamente na semana de menswear italiana. Com seus modelos usando camisas de laço pussybow e alfaiataria austera, Michele rasunhava novas fronteiras estéticas de gênero na passarela — muito antes, aliás, que qualquer marca de luxo ou high street falasse em não-binaridade ou neutralidade de gênero.

E qualquer que tenha sido a fórmula aplicada por Michele, funcionou. O kitsch burguês dos anos 70 adaptado à patomima obrigatória do Instagram dos anos 2010 conquistou o gosto (e carteira) dos millennials —  público que o luxo demorou a entender e que, em boa parte, sustentou o crescimento do segmento nos últimos anos. Sob a tutela criativa de Michele, a marca viu números astronômicos, com crescimento em vendas anual chegando a 50%.

Gucci fala de masculinidade tóxica em seu último desfile (Foto: Imaxtree)

 

No entanto, os trunfos do designer não ficaram apenas em emplacar it-bags ou fazer o público querer consumir mules forradas de pelo sintético, mas em entender que a sobrevivência do segmento de luxo dependia do engajamento das marcas em causas que refletissem seus valores e não apenas da vontade de seus clientes em ostentar cintos com G’s entrelaçados. E não à toa, a desigualdade de gênero foi um dos temas que Michele mais abraçou, reformulando projetos dentro do Chime for Change (iniciativa da marca pelo empoderamento e capacitação de mulheres e meninas pelo mundo) e com desfiles como o Cruise 2020, que se debruçou sobre os direitos reprodutivos femininos.

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Para a coleção de menswear outono 2020, foi vez da masculinidade tóxica. Utilizando-se da neutralidade, praticidade e maior acessibilidade que uma camiseta oferece, Michele estampou trocadilhos sobre t-shirts que atacavam a questão, como “impotent” e “impacient” (impotente e impaciente, em inglês). Mais do que as roupas, o comunicado do desfile proclamava mais a aceitação de uma beleza sem gênero. ““A masculinidade tóxica, de fato, nutre abuso, violência e sexismo. E não só isso. Condena os próprios homens a se conformarem com uma virilidade fálica imposta para serem socialmente aceitos ”, dizia o release. 

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Além da t-shirt, a ideia plantada em 2015 por Michele ressoou esteticamente por toa a coleção. Tricôs cropped, malas e bolsas com a palavra “fake” (falso, em inglês) e silhueta reta vestiam o homem Gucci  — que pode também ser uma menina ou simplesmente não se adequar a binaridade dos gêneros — lembrando a neutralidade de uniformes escolares e o recente makeover do ícone da geração-Z, Harry Styles. Michele pode não ter encontrado um antídoto para a masculinidade tóxica, mas propôs um novo caminho estético distante do ideal viril do superherói musculoso.

Gucci fala de masculinidade tóxica em seu último desfile (Foto: Imaxtree)

 

Gucci fala de masculinidade tóxica em seu último desfile (Foto: Imaxtree)