Hermila Guedes se emociona ao falar de violência familiar na infância

Hermila Guedes (Foto: Reprodução/Instagram)

 

“As mulheres estão sendo mortas e ninguém quer ouvir estas pessoas para que não aconteça mais”. Hermila Guedes se viu em um momento muito difícil quando aceitou o convite para interpretar a professora Sônia, da série Segunda Chamada, porque sua personagem passaria pelos mesmos problemas familiares que sua mãe já teve no passado: violência doméstica.

A atriz conta em entrevista à Marie Claire que não precisou conversar com nenhuma outra mulher sobre o assunto e toda vez que eu vê uma reportagem de mulheres que sofreram violência pelo Brasil, é algo que lhe arrepia, revolta e faz chorar.  

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Só de falar me dá vontade de chorar. É algo muito triste e muito sério. As mulheres estão sendo mortas e ninguém quer ouvir estas pessoas para que não aconteça mais. Minha mãe poderia ter sido uma vítima desta estatística, mas não foi por destino. É importante saber que a vítima não é somente esta mulher, mas a família inteira, se tem filhos, eles também são vítimas. É difícil entender esta relação que o homem que você mais ama na vida machuca a mulher que você mais ama… É muito difícil tratar sobre o assunto, é delicado, mas precisa ser levado com mais seriedade. As mulheres precisam estar seguras para denunciar isso. Os homens precisam de uma educação para que entendam que este machismo mata”, alerta.

Hermila acredita que este assunto sendo abordado em uma série, logo depois da novela das 9, A Dona do Pedaço, produto de maior audiência da Globo, pode encorajar essas mulheres a denunciar as agressões e reconhece que compartilhar sua própria história também ajuda outras mulheres a se sentirem mais seguras para denunciar.

Acho que a mulher não é a única vítima, os filhos também são. Uma das grandes mágoas da minha vida era entender como amar este homem que violentava a mulher que eu mais amo nessa vida. Então, uma das minhas dificuldades em cena, que a Joana [Jabace, diretora] não sabia… (pausa) estou emocionada, desculpe! Ao mesmo tempo que era fácil viver aquele personagem, era difícil por ter de viver tudo aquilo de novo. A arte, às vezes, cura e fortalece”, diz.

Hermila Guedes no papel da professora Sonia em "Segunda Chamada" (Foto: Mauricio Fidalgo / TV Globo)

 

Depois de um breve respiro, a atriz afirma que esta é uma oportunidade de vivenciar certas lembranças, por mais difíceis que sejam para se transformar, e com isso teve a oportunidade de desenvolver uma empatia pela sua personagem.

Pude entender como ela poderia compartilhar deste mesmo sentimento com os alunos. Por mais que eu tivesse sofrido com os mesmos problemas, percebo que a Sônia tenta não levar os problemas para dentro da sala de aula, embora eu saiba que seja muito difícil. É um grande aprendizado para mim como atriz e como pessoa”, analisa.

E por falar na professora, Sônia tem uma vida dura, com dupla jornada de trabalho e, para se manter acordada, começa a tomar remédios para se manter acordada, o que acarreta em mais um problema em sua vida: o vício em medicamentos.  

É muito comum conhecer pessoas que usam remédio para dormir até dentro da família. É um caso clássico! As pessoas acabam se viciando porque chega uma hora que o corpo não dá conta ou dá um problema contrário ao que deseja. Não é difícil encontrar pessoas assim. A gente tenta tirar um problema da frente e dá de frente com o outro.”

Hermila perdeu o pai, ex-policial, ainda muito jovem, aos 10 anos de idade, vítima de assassinato, e foi criada em uma família majoritariamente formada por mulheres. Por este motivo, cresceu com muitas referências femininas e superfeministas sem nem saber o significado desta segunda palavra tão debatida nos dias de hoje.

São feministas por necessidade, não por intelectualidade. É por sobrevivência! Elas são muito guerreiras e é muito fácil ver isso em famílias brasileiras hoje, em que a mulher domina, provê, trabalha, cuida, educa os filhos e tudo isso sozinhas. Eu admiro muito essas mulheres que conseguem lutar nessa vida diária para que essa família tenha uma qualidade mínima. A morte do meu pai não foi um alívio para mim naquela época [mesmo com a violência] porque acho que eu não tinha consciência de entender que se meu pai fosse embora a violência acabaria. Eu era muito pequena para entender se isso era bom ou ruim”, conta.

Hermila Guedes (Foto: Reprodução/TV Globo)