Monogâmicos, cisnes que moram em lago do Palácio do Itamaraty sofrem a perda de parceiros

Branquinha é da espécie Cygnus olor, natural da Europa e da Ásia. Pretinha é representante dos Cygnus atratus, originários da Austrália (Foto: MARCOS RAMOS/AGÊNCIA O GLOBO)

Pretinha e Branquinha são viúvas que nutrem completa fidelidade a seus finados parceiros. Entregues à solidão, a perspectiva de um novo companheiro lhes é no mínimo improvável. Mas essa lealdade não deve ser confundida com amor. Para elas, almas gêmeas não fazem sentido. Nem encontrar a tampa da panela, nem a metade da laranja. Elas obedecem antes de tudo a um instinto que resume suas vidas a dois verbos: acasalar e procriar. Nada disso se aplica a Pretinha e Branquinha, as fêmeas de cisne — monogâmicas e viúvas — que adornam o Palácio do Itamaraty, representação do Ministério das Relações Exteriores no Rio de Janeiro.

Ainda jovem, com cerca de 3 anos, Pretinha foi quem primeiro enviuvou. Em 2013, o corpo de seu companheiro foi encontrado por funcionários do Itamaraty. Envolta em mistérios, a morte do cisne ainda gera mais perguntas que respostas, mas se acredita que o animal morreu ao ser atingido por um objeto não identificado. Em 2016, foi a vez de Branquinha se ver enlutada, quando uma inflamação óssea tirou a vida do cisne com quem dividia a porção diária de ração.

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A eventual carência de afago masculino de Branquinha é amenizada por uma amizade com Pretinha que as faz parecer duas comadres. “Elas se dão bem. Estão sempre muito próximas uma da outra. Nunca se desentendem. Acho que elas se consolam em sua viuvez”, disse o embaixador Eduardo Prisco, de 67 anos, chefe da representação do Itamaraty no Rio de Janeiro.

Em 2017, a tranquilidade a que Pretinha e Branquinha estavam acostumadas foi abruptamente interrompida. Dois cisnes negros foram doados pelo zoológico do Rio de Janeiro para que o Itamaraty voltasse a ter quatro aves, número exigido pela tradição palaciana. Estaria tudo em perfeita harmonia, caso os forasteiros não tivessem uma certa inclinação para a violência, especialmente quando a vítima tem idade avançada.

Fragilizada por seus 30 anos, Branquinha foi quem mais sofreu com os surtos de fúria dos novatos. “Eles batiam nas duas, sobretudo na Branquinha, que tem um problema de locomoção. Ela anda devagarinho. Os dois iam para cima dela, ó…”, disse Prisco, reproduzindo com as mãos o som de bordoadas. À época, pensou-se que os animais estivessem estressados em razão da mudança e acharam por bem separá-los. De nada adiantou. Os bichos não só atacavam Branquinha, como passaram a investir contra os funcionários do lugar.

Há um ano responsável pelas aves, Waldemir de Oliveira, de 56 anos, acompanhou de perto o calvário das duas e especulou que o motivo do incidente possa ser um tanto prosaico. “Acho que vieram um macho e uma fêmea. A fêmea tinha ciúme dele com Branquinha e Pretinha. E corria de um lado, corria do outro. Se elas estavam em outra ponta, voavam até lá para pegá-las. Acho mesmo que quem batia era a fêmea, porque pensava que o cisne fosse namorar com as duas.” Não restou alternativa senão devolver os irritadinhos ao zoológico. “Foram bobos. Perderam um lago bom destes”, desdenhou Oliveira.

Cisnes são criaturas leais. Diferentes de alguns patos — que se mantêm apenas com um parceiro durante o período reprodutivo, mas depois vão à procura de outros parceiros — ou das galinhas, animais célebres por sua liberdade sexual, cisnes formam relações monogâmicas, que, em geral, duram uma vida toda. No entanto, esse pacto de fidelidade está muito mais perto do pragmatismo biológico que do romantismo inveterado. De acordo com o ornitólogo Luís Fábio Silveira, professor da Universidade de São Paulo (USP), o comportamento é uma estratégia reprodutiva: “Casais que criam juntos os filhotes aumentam a chance de a prole sobreviver, já que tem a atenção dos dois pais”. Assim, para essas aves, não faz sentido gastar tempo e energia flertando com diferentes parceiros e deixar o ninho desprotegido.

Guarnecer suas crias é uma atividade que cisnes realizam com especial dedicação. “Quando a fêmea faz o ninho, o macho fica vigiando. Eles se tornam extremamente agressivos na temporada de reprodução. E, quando a fêmea sai para tomar banho ou se alimentar, o macho permanece no ninho, mas a agressividade continua a mesma”, explicou Maria Virgínia, de 66 anos, da Associação Brasileira de Criadores de Aves de Raça Pura (ABC Aves). Segundo ela, se o macho tiver a sua disposição duas fêmeas, ainda assim escolherá apenas uma e, diferentemente de outras espécies, não manterá “amantes”.

Mas cisnes não são bobos. Ao menor sinal de incompatibilidade matrimonial ou de fraqueza do parceiro, não pensarão duas vezes para se separar. Em 2010, a BBC inglesa noticiou um caso que espantou ornitólogos. Veterinários da reserva de Slimbridge, em Gloucestershire, perceberam que dois cisnes voltaram da temporada de migração com parceiros diferentes daqueles que costumavam ter. Juntos havia pelo menos dois anos, o casal não conseguia reproduzir, razão pela qual houve o divórcio, segundo especialistas. O último caso de separação entre cisnes da reserva havia sido registrado 40 anos antes.

No entanto, não é preciso ir além-mar para encontrar casos parecidos. O lago em que Pretinha e Branquinha se banham tem um longo histórico de disputas amorosas. Em 1965, Caruso, de 6 anos, morreu depois de receber sucessivas bicadas de Romeu, um cisne com quem dividia o espelho d’água. O animal havia contraído uma doença desconhecida e estava cada vez mais magro, fraco e depenado. Avaliando a situação, sua companheira não pensou duas vezes: trocou o combalido Caruso por Romeu, um macho em plena forma física. Em 16 de março, virou notícia de jornal:

“O cisne Caruso, de 6 anos, personagem de um drama passional que começou há duas semanas, quando sua fêmea, Esmeralda, abandonou-o doente e fraco para nadar ao lado de Romeu e partilhar de sua ração de farelo, morreu ontem no lago do Itamaraty, assassinado a bicadas”, publicou o Jornal do Brasil. Para completar o enredo, uma reunião com diplomatas japoneses foi interrompida durante 15 minutos por causa do imbróglio aviário.

Essa, porém, não foi a primeira vez que o Palácio do Itamaraty se fez cenário para rompimentos matrimoniais. Em 1º de agosto de 1957, o extinto jornal A Noite informava a fuga cinematográfica do cisne Adão. Sob o título “Fugiu da companheira à procura de outra”, a reportagem comentava que o animal decidira levantar voo “movido por um desejo irrefreável de procurar outros amores, por achar-se justamente na época da reprodução, quando os instintos ficam mais agitados”. O motivo da fuga estaria na incapacidade de acasalar com a fêmea que lhe designaram, a quem o jornal se refere como “pobre cisne abandonada pelo broto e escorraçada pelo outro casal”.

Pretinha e Branquinha comem todos os dias por volta de 150 gramas de ração para aves (Foto: MARCOS RAMOS/AGÊNCIA O GLOBO)

À diferença de seus antecessores, Pretinha e Branquinha não passaram por dissabores amorosos e é pouco provável que os viverão. Embora esteja procurando um casal de cisnes para ocupar o lago, o embaixador Eduardo Prisco não alimenta esperanças sobre uma eventual incursão amorosa das viúvas. “De acordo com os especialistas, isso não acontece”, declarou. Segundo Maria Virgínia, cisnes de fato se mantêm fiéis ao parceiro mesmo depois da morte, o que torna remota a formação de um novo casal. No caso do Itamaraty, a procura de novas aves tem mais a ver com a necessidade de manter viva uma antiga tradição.

“Nosso esforço é tentar conseguir dois casais de cisnes. Um cisne branco e um cisne negro. Sobretudo porque a cisne branca é mais velha e está se aproximando o momento em que morrerá. A pretinha, não. Ela é mais nova e tem mais tempo. Se a gente arranjar um cisne branco, vamos colocar. A tradição é ter um casal de cisnes brancos e um casal de cisnes pretos. A tradição já tem quase 80 anos”, afirmou Prisco.

Cisnes fazem parte do Itamaraty desde a década de 1930, quando o diplomata Octávio Mangabeira mandou abrir um grande lago no pátio interno do Palácio. O primeiro cisne foi chamado de Tristão, porque foi dado pelo embaixador da Alemanha. Já a primeira fêmea de cisne branca tinha o apelido de Perla e foi dada pelo embaixador da Espanha. A partir daí, a construção de estilo neoclássico conta com doadores para manter o costume vivo.

As doações se justificam pelo alto valor dos animais. Se Pretinha estivesse à venda, ela não sairia por menos de R$ 4 mil. Isso porque cisnes negros são considerados os mais “baratos” do mercado. Nativo da fauna brasileira, o cisne-de-pescoço-preto pode custar até R$ 7 mil por causa dos documentos necessários para criá-lo em cativeiro. Segundo Maria Virgínia, a baixa taxa de natalidade dos animais pode explicar esses valores. “A criação deles não é fácil. É uma ave muito delicada e sensível. Reproduzem só depois de 3 anos de idade. Botam poucos ovos e, às vezes, não saem filhotes desses ovos. Então é uma produção muito baixa. E tudo que é raro é mais caro.”

O alto preço talvez ajude a explicar por que essas aves continuam ligadas à ideia de elegância e fidalguia. Na Inglaterra, todos os cisnes brancos presentes em água aberta são considerados propriedades da Coroa desde o século XII. A Swan Upping — um censo para contabilizar quantos cisnes existem no Rio Tâmisa — remonta desse período e conta, inclusive, com a participação da rainha Elizabeth. Aqui, no Brasil, com seus pescoços empertigados e um certo ar blasé, Pretinha e Branquinha não permitem que o Itamaraty perca de vista seu passado aristocrático.