O pesadelo das chuteiras imortais

Infalível como o Natal, a Copa do Mundo se abate sobre o colunista como íntimo e incontornável apocalipse. É o lembrete, a cada quatro anos, de que sou cidadão de segunda classe por minha total indiferença ao futebol. Desterrado em minha própria terra, a mim escapa traço essencial da identidade pátria, traço esse que na tediosa celebração quadrienal deveria nivelar nossas abismais diferenças em torno de uma união inefável que, a meus olhos ateus, só se justifica na base da crença.

Orgulhoso da estultice que é própria dos jovens, em tempos idos eu rejeitava o futebol como uma manifestação de ignorância das massas.

Idiota político extemporâneo, acreditava que, quanto mais longe dos campos, mais perto da vida como ela é. De Nelson Rodrigues, aliás, me repugnava a ideia de uma pátria em chuteiras. É que no fundo eu era, e ainda sou, a grã-fina de narinas de cadáver que, nas cadeiras azuis do Maracanã, perguntava: “Quem é a bola?”.

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Lembro-me das cadeiras azuis, arrasadas quando o estádio virou arena, porque meu pai bem que tentou. Quando nasci, disse, sem a convicção que também falta a ele: “És Vasco”. Na infância, me levava ao Maracanã para eu ver Papai Noel chegar de helicóptero e, no início da adolescência, para que me interessasse por aqueles outros seres, tão improváveis quanto o Bom Velhinho, que faziam urrar as arquibancadas lotadas.

Minha inapetência ao ludopédio começa na etimologia. Combina o interesse negativo por qualquer jogo com uma total inabilidade física. Desminto linha por linha o Homo ludens, clássico em que o historiador Johan Huizinga afirma ser possível negar até Deus e a beleza, mas não o jogo. Como vantagem, digamos, competitiva, garanto que a meu nome jamais será associado o hediondo adjetivo “lúdico”. Não jogo nem buraco, desconheço as regras da porrinha e, até há pouco tempo, PS4 era algo como uma enzima a controlar.

A Copa rompe, na marra, o silêncio que consigo manter em torno do futebol nos três anos e 11 meses entre uma e outra edição do torneio. Neste 2018 aziago, fui poupado das horrendas decorações de rua, mas não de marmanjos trocando figurinhas cafonas. E muito menos dos tonitruantes erres de Galvão Bueno plasmando a inexcedível emoção de ser brasileiro.

Pior mesmo é ser engolfado pelas “histórias de superação” de meninos-pobres-dos-cafundós-que-ganham-o-mundo-por-seu-excepcional-talento, narrativa de autoajuda interminável como uma viagem da família Schurmann. Isso para não falar na apoteose de estatísticas inúteis de mesas-redondas e nos compungidos boletins sobre joelhos e articulações menos votadas dos sacrificados canarinhos biliardários.

No início da Copa, vem o lembrete: deixe de fora todas as esperanças. Uma corrida de táxi pode levar a um dos círculos do Inferno se o Virgílio ao volante resolve debater o árbitro de vídeo, a estratégia de Tite ou a vida e a obra do maroto Neymar. Me viro melhor em festa, único esporte que pratico, e já promovi algumas em dias de jogo para não ter de ir a comemorações alhures. No 7 a 1 estava com pessoas que pouco conhecia e passei maus bocados por não conseguir manifestar o pesar que não sentia. Se não me alegrou, o resultado tampouco me deixou triste.

Futebol só me diverte como uma espécie de horóscopo, especulação vadia sobre a alma humana. Muitos de meus melhores amigos são botafoguenses, assim como o analista fundamental — era ele quem garantia que meu inconsciente é alvinegro: cético, um tanto pessimista, fatalista por convicção e precaução. Foi um desses amigos, aliás, que me apresentou à única camisa que cogitei vestir, a da torcida organizada Botaschopenhauer.

Até entendo, por isso, que alguém possa ser Fluminense ou América, como pode cultivar a ideia de ser capricórnio ou aquário, de definir a si e aos outros por um arquétipo qualquer. Mais difícil é engolir como se pode plasmar num time a ideia de um país, qualquer país. E, ainda mais difícil, quase impossível para este incréu, como alguém pode bater no peito e orgulhar-se de ser brasileiro, com muito orgulho, com muito amor. É puxado.