O que você precisa saber para gostar de futebol, a tarefa simples mais árdua que existe

Pelé dá um drible de corpo no goleiro Ladislao Mazurkiewicz, durante a semifinal entre Brasil e Uruguai na Copa do Mundo de 1970 (Foto: KEYSTONE/HULTON ARCHIVE/GETTY IMAGES)

Laurent Dubois dedica por volta de dez páginas de The language of the game (A linguagem do jogo) para descrever como o impedimento mudou ao longo das décadas. “Negociar a regra do impedimento é uma das mais complexas e exaustivas características do jogo, tanto para atacantes quanto para zagueiros, uma intricada dança que envolve posicionamento e sincronização dos mais sutis”, escreve ele. “Apreciar e entender essa dança é, em um nível básico, apreciar e entender o futebol.” Na verdade, Dubois minimiza o quadro. A regra do impedimento é o coração e a alma do que nós, aficionados, quando exaltados, chamamos de “o belo jogo”. Por favor, siga comigo enquanto explico.

Sob risco de simplificar demais: a regra do impedimento decreta que um jogador não deve passar a bola para um colega de time exceto quando, no momento do passe, pelo menos dois membros do time rival estejam mais perto do gol que seu companheiro. Imagine que você seja um jogador de futebol com a bola. Você procura e vê um parceiro de time sozinho, sem zagueiro por perto, a 27 metros do gol. Tudo que você precisa fazer é chutar a bola em sua direção para que ele fique cara a cara com o goleiro. Mas você não pode. Em vez de estar em júbilo com essa oportunidade de marcar um gol, você fica chateado por esse colega estar fora de posição.

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Praticamente todos os maravilhosos padrões e geometrias futebolísticas nascem dessa regra, que também dá origem a algo que desagrada aos não aficionados: a escassez de gols. Mas os amantes do futebol ficam exasperados quando eles acontecem de maneira gratuita. Marcar um gol não deveria ser algo fácil, e, tal qual ouro e diamante, existe uma ligação entre raridade e apreço. O verdadeiro fã se deleita ao ver um jogador não só munido do dom físico, mas também da imaginação para driblar as regras que parecem concebidas especialmente para impedir um gol.

Não acredito que haja outro esporte em que um lance que terminou em fracasso possa ser tão celebrado. O brilhantismo que antecede o erro ofusca tudo
Torcedores presentes no estádio Jalisco, em Guadalajara, frustraram-se ao ver perder-se pela linha de fundo o arremate de Pelé, após corta-luz no goleiro uruguaio Mazurkiewicz. O Brasil venceu por 3 a 1, mas nenhum gol se tornaria mais lembrado do que a j (Foto: ARQUIVO/AGÊNCIA O GLOBO)

Um dos momentos mais célebres da história do futebol aconteceu na Copa do Mundo de 1970, na semifinal entre Brasil e Uruguai. Com a bola à esquerda do meio de campo, o atacante brasileiro Tostão procura e vê Pelé a sua direita, correndo a toda energia em direção ao gol. Tostão precisa ser rápido ao fazer o passe, antes que Pelé ultrapasse os zagueiros e fique, portanto, impedido. O atacante realiza um belo passe sinuoso, mas o goleiro uruguaio percebe o perigo e, às pressas, tenta impedir. Pelé continua a toda velocidade — que não é de se desprezar — e talvez consiga vencer o goleiro, mas certamente haverá uma terrível colisão entre os dois homens. Milésimos de segundo depois, antes da inevitável trombada, Pelé altera levemente o curso para evitar o goleiro e a bola, que rola para a diagonal através do campo. Você não consegue assistir à cena sem prender a respiração e, em seguida, perguntar: como Pelé pensou em fazer isso?

Mas o que acontece em seguida? Bem, Pelé corre em direção à bola, gira o corpo para pegar um bom ângulo do gol agora vazio e então… erra.

Novamente, esse é um dos mais famosos momentos do futebol e termina em um gol perdido. Não acredito que haja outro esporte em que um lance que terminou num fracasso possa ser tão celebrado. Mas o golpe de brilhantismo que antecede o erro é tão memorável aos entusiastas do futebol que qualquer outra coisa é ofuscada. (A propósito, o Brasil ganhou essa partida e o jogo final contra a Itália, sagrando-se campeão da Copa do Mundo.)

Pode ser fácil concluir que futebol é o tipo de jogo que você entende ou não entende. Ainda assim, Laurent Dubois assume a árdua e nobre tarefa de tentar tornar o futebol algo compreensível e interessante para quem está acostumado a seguir outra lógica. E é uma tarefa que ele realiza com êxito.

O livro é organizado por posição. Dubois começa descrevendo a função do goleiro. Em seguida, vai para o zagueiro, o meio de campo e o atacante — indo da defesa ao ataque, o que é apropriado por motivos listados acima —, e termina com o técnico, o árbitro e o fã. Uma das consequências dessa estrutura é que alguns elementos centrais do jogo, por exemplo as várias possíveis formações de jogadores em campo, não têm uma posição óbvia e podem ser introduzidos a qualquer momento. (Dubois detalha o básico da formação no capítulo sobre zagueiros.) Outra é que A linguagem do jogo não funciona bem como um guia, mas, sim, como uma narrativa. Você precisa estar disposto a ler todo o livro em vez de folhear aqui ou ali, embora haja muitas passagens que neófitos vão querer marcar e reler.

Se você quiser entender do que se trata o esporte mais popular do mundo ou se você já entende, mas quer que seus amigos e familiares compartilhem de seu interesse, A linguagem do jogo é uma excelente forma de começar. Dubois não captura perfeitamente o fascínio singular do futebol, mas isso acontece porque ele não pode ser capturado pela prosa rotineira. Como um formigueiro ou uma colônia de limo, o futebol expõe uma emergente complexidade: um simples manual de regras gera uma ampla gama de ações. Esse é o motivo por que Johan Cruyff, um grande jogador e pensador, a coisa mais próxima de um rei filósofo que o jogo já teve, frequentemente se expressava por meio de paradoxos. Deixarei aqui o meu favorito: “Jogar futebol é muito simples, mas jogar o futebol simples é a tarefa mais árdua que existe”.